Há
doces momentos – no início dos relacionamentos – em que uma das pessoas
não consegue bem ter coragem de indicar ao outro o quanto gosta dele ou
dela. Adorariam pegar em sua mão e encontrar um lugar em sua vida; mas o
medo da rejeição é intenso demais, e a pessoa hesita e fraqueja. Nossa
cultura tem muita simpatia por esse estágio do amor, tão desajeitado e
intensamente vulnerável que é.
É-nos ensinado que sejamos pacientes com as formas
esquisitas que as pessoas usam, de início, na tentativa de expressar
suas necessidades. Podem ficar ruborizadas ou com a língua presa. Podem
também agir de forma sarcástica ou fria, não por indiferença, mas como
uma forma de disfarçar um entusiasmo tão poderoso que poderia ser
perturbador.
A pressuposição, no entanto, é que o terror da rejeição de
alguma forma será limitado, simplesmente por ocorrer em uma fase
particular do relacionamento: o início. Uma vez que um parceiro
finalmente nos aceite e a união esteja em andamento, a pressuposição é
de que o medo deveria acabar. Seria esquisito que as ansiedades
continuassem mesmo depois que duas pessoas fizeram algum tipo de
compromisso mútuo totalmente explícito, adquiriram uma hipoteca em
conjunto, compraram uma casa juntas, fizeram votos, tiveram alguns
filhos, e colocaram o nome uma o da outra em seus testamentos.
E ainda assim uma das características mais esquisitas dos
relacionamentos é que, no fim das contas, o medo da rejeição nunca
acaba. Continua, mesmo nas pessoas completamente sãs, e em termos
diários, com algumas consequências devastadoras – principalmente por nos
recusarmos a prestar atenção nisso, e por não sermos treinados para
identificar os sintomas contraintuitivos desse medo nos outros. Não
descobrimos uma forma livre de estigmas para admitir o quanto precisamos
de segurança.

Dentro de nossas psiques a aceitação nunca é tomada como garantida, a
reciprocidade nunca é certa; sempre é possível que novas ameaças
surjam, reais ou imaginadas, perante a integridade do amor. O
desencadeador da insegurança pode ser aparentemente minúsculo. Talvez o
outro esteja trabalhando mais do que o esperado; ou conversava animado
com um estranho em uma festa; ou já faz um tempinho desde a última vez
que se fez sexo. Talvez o outro não tenha sido tão acolhedor quando
entramos na cozinha. Ou esteja muito quieto na última meia hora.
Mesmo depois de permanecer anos com alguém, ainda pode haver um
rodamoinho de medo com relação a pedir uma prova do que queremos. Mas a
isso se adiciona uma complicação terrível: agora presumimos que esse
tipo de ansiedade não era para existir.
Isso faz com que seja muito difícil reconhecer nossos sentimentos,
que dizer então comunicá-los aos outros de formas com alguma chance de
nos conformar na compreensão e simpatia que tanto ansiamos. Em vez de
pedir por algum conforto de forma carinhosa e apresentar nossos anseios
com charme, pelo contrário mascaramos nossas necessidades por trás de
alguns comportamentos brutos e simplesmente desconsiderados, o que
garante que frustremos nossas necessidades. No contexto dos
relacionamentos estabelecidos, quando negamos o medo da rejeição, três
sintomas principais tendem a aparecer:
Um: nos distanciamos
Queremos nos aproximar de nossos parceiros, mas nos sentimos tão
ansiosos quanto a sermos indesejados que os congelamos lá fora. Dizemos
que estamos ocupados, fingimos que nossos pensamentos estão em outras
coisas, implicamos que uma necessidade de segurança é a última coisa que
passa por nossas cabeças.
Podemos até mesmo trair, o que é uma derradeira estratégia para não
se ficar com cara de bobo ao manter o distanciamento – uma tentativa
perversa de afirmar que não demandamos o amor do parceiro (pelo qual mal
pedimos, reservados que somos). As traições podem se tornar os mais
esquisitos elogios; provas ardorosas da indiferença que reservamos, e
secretamente dirigimos, para aqueles com quem realmente nos importamos.

Dois: ficamos controladores
Ao sentir que estão nos escapando emocionalmente, respondemos
tentando enquadrá-los “administrativamente”. Ficamos indevidamente
furiosos com seus atrasos, xingamos por não completarem certas tarefas
cotidianas, enchemos constantemente pedindo para que realizem uma tarefa
que concordaram em fazer. Tudo isso para não ter que admitir: “estou
preocupado que você não se importe comigo...”
Não podemos (acreditamos) forçá-los a serem generosos e carinhosos.
Não podemos forçá-los a nos querer (mesmo sem ter perguntado...) Então
os tentamos controlar em suas ações. A finalidade não é realmente ficar
na posição de mandão o tempo todo, só não podemos admitir nosso terror
perante o quanto já nos rendemos ao outro. Um ciclo trágico então se
desenrola. Ficamos desagradáveis e estridentes. Para a outra pessoa,
parece que não somos mais capazes de amá-la. Ainda assim a verdade é que
a amamos: só temos demasiado medo de que não nos ame.
Três: ficamos malvados
Como recurso final, protegemos nossa vulnerabilidade ao denegrir a
pessoa que nos escapa. Espezinhamos suas fraquezas e reclamamos de seus
defeitos. Tudo para evitar a pergunta que tanto nos perturba: essa
pessoa me ama? E ainda assim, se esse comportamento grosseiro e feio
pudesse ser realmente compreendido, o que seria revelado não seria
rejeição, mas um pedido bem real, ainda que estranhamente distorcido,
por carinho.
* * *
A solução para todos estes problemas é normalizar uma imagem nova,
mais precisa, do funcionamento emocional: deixar claro o quão saudável e
maduro é ser frágil e necessitar constantemente de conforto e
segurança.
Sofremos porque a vida adulta postula uma imagem muito robusta de
como supostamente operamos. Tenta nos ensinar a ser independentes e
invulneráveis num nível implausível. Sugere que pode não ser correto
exigir do parceiro que nos mostre que ainda gosta de nós, após sair por
apenas algumas horas. Ou quando queremos que nos confortem que não se
afastaram de nós – só não prestaram muita atenção em nós durante uma
festa e não queriam ir embora quando quisemos.
E ainda assim, é precisamente esse tipo de conforto que
constantemente exigimos. Nunca nos saciamos das exigências por
aceitação. Não é uma maldição limitada aos fracos e inadequados. A
insegurança é, nessa área, um sinal de estar bem. Significa que não nos
permitimos tomar os outros como garantidos. Significa que permanecemos
suficientemente realistas, verificando para que as coisas não realmente
sigam numa direção ruim – e que nos importamos com isso.
Devíamos abrir espaço para momentos normais, pelo menos talvez
durante algumas horas, em que nos permitimos não sentir vergonha e
podemos legitimamente pedir confirmação. ‘Preciso muito de você; você
ainda me quer?’ devia ser a pergunta mais normal de todas. Deveríamos
desvincular a admissão de necessidade de quaisquer associações com o
termo infeliz e punitivamente machão: “grudento”. Precisamos melhorar no
reconhecimento do amor e dos anseios que jazem subentendidos nos
momentos mais gélidos, administrativos ou brutos de nosso parceiro e de
nós mesmos.
* * *